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Duas lógicas de tempos distintos se encontram nas ruas das cidades. De um lado, a remuneração por "peça", ou melhor, "por corrida", herança das fábricas da Revolução Industrial; de outro, a gamificação, técnica moderna vinda da engenharia dos jogos eletrônicos.
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Ambas se misturam na rotina exaustiva de motoristas de aplicativo, que trabalham longas jornadas diariamente sob pressão algorÃtmica e estÃmulos performáticos.
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Essa realidade foi vivida de perto pelo procurador do Trabalho Ilan Fonseca, do MPT/BA. Durante quatro meses, ele se licenciou do cargo para atuar exclusivamente como motorista de aplicativo em Salvador/BA.
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A experiência teve um propósito acadêmico e pessoal: compreender, por dentro, a dinâmica do trabalho plataformizado. O resultado foi uma tese empÃrica transformada no livro "Dirigindo Uber: A Subordinação JurÃdica na Atividade de um Motorista de Aplicativo".
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O método de imersão e observação empÃrica, utilizado por Ilan, é pouco comum no campo do Direito, mas gerou forte repercussão.
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"[...] a tese, a pesquisa, o livro, causa esse tipo de reação. Ou você gosta muito dela, ou você odeia. [...] Mas, assim, é difÃcil, realmente, o pessoal ficar indiferente à pesquisa" conta.
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E não à toa: a "uberização" do trabalho, assim como a "pejotização", são fenômenos crescentes, mas ainda escassamente tutelados e de difÃcil enquadramento jurÃdico.
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Ilan explica que sua vivência em 350 corridas e 352 horas online foi essencial para compreender o grau de precarização envolvido na atividade.
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"Houve um total aproximado de R$ 1.300 de prejuÃzo nesses quatro meses, quando você computa todos os gastos, como: depreciação, seguro do automóvel, IPVA e outras taxas administrativas, que são gastos que os motoristas em geral não costumam computar. Eles só fazem o desconto realmente do combustÃvel que eles realizam", relata.
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Mais relevante que o saldo financeiro negativo, no entanto, foi o diagnóstico estrutural.
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"Acham que eu tive prejuÃzo porque eu não soube trabalhar, mas esse é outro ponto muito controvertido. A questão de saber trabalhar ou não em plataformas [...] é muito mais uma questão que é estrutural do que uma decisão individual de inteligência, de sabedoria."
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Gamificação anestésica
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Ao longo da jornada, Ilan viveu na pele o que a literatura jurÃdica tem chamado de "gamificação do trabalho". A Uber lhe oferecia "missões", prometia "bônus", e usava emojis para estimular permanência online.
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"É uma forma de você suavizar o sacrifÃcio que o motorista de aplicativo sofre diariamente para realizar esse tipo de atividade. Então há uma forma de você extrair o máximo de trabalho desses motoristas, porque isso aà eu pude realmente sentir de maneira muito aguda."
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Para o procurador, esse sistema ludificado serve para manter os motoristas sob subordinação funcional sem despertar para a noção de que o trabalho é "tedioso e sacrificante".
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"Depois de algumas horas de trabalho, o seu corpo, mas principalmente a sua mente fica muito cansada. Então eu diria que se as plataformas digitais não fizessem uso da gamificação, esse trabalho dificilmente contaria com muitas horas. A partir de umas 7, 8 horas, além de ser sacrificante, ia ficando muito chato, muito tedioso e isso faria com que esses trabalhadores despertassem para perceber como isso é ruim, como esse trabalho é ruim, como esse trabalho é pouco gratificante, como esse trabalho tem pouco reconhecimento social."
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Pejotização
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Embora a tese não trate diretamente da pejotização, Ilan Fonseca observou durante a experiência como motorista de aplicativo que esse fenômeno se conecta intimamente à lógica precarizante das plataformas.
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"Alguns motoristas de aplicativo que abriram MEI, ou seja, eles têm um CNPJ para trabalhar, não estão sendo contratados pelas plataformas digitais como o PJ, mas eles abriram MEI para fazer o recolhimento das contribuições previdenciárias. Porque uma parte desse motorista de aplicativo tem preocupação em receber alguma aposentadoria no futuro", explica.
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A pejotização, assim como a uberização e a terceirização, aparece, segundo ele, como estratégia que transfere ao trabalhador todos os riscos da atividade, sem garantir contrapartidas mÃnimas de segurança jurÃdica e social.
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"Esses três fenômenos estão diretamente relacionados a essa precarização do trabalho. Precarização no sentido de insegurança financeira, insegurança da manutenção das condições de trabalho. Insegurança no sentido do recebimento de benefÃcios previdenciários. Então, nesse sentido, a pesquisa somente reforçou em mim como essa precarização vai estar presente na pejotização, na uberização, na terceirização, e assim tem sido um fenômeno que só cresce", resume.
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A ilusão da autonomia
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Ilan também desmonta um dos mitos mais recorrentes sobre a liberdade do trabalho nas plataformas: a escolha.
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Para ele, o que há é um fluxo contÃnuo e pouco qualificado de demandas, que prende o motorista em um ciclo de decisões forçadas por necessidade.
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"Independentemente do local onde você esteja e do horário, se você ligar o seu aplicativo sempre vai aparecer corridas", afirma.
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Mas isso não significa boas oportunidades. "Às vezes são corridas a 15 quilômetros de distância, fica inviável."
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A aceitação, explica, decorre muitas vezes de "desconhecimento, ignorância financeira" ou de uma necessidade imediata de obter dinheiro.
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No aeroporto, onde motoristas se reuniam para conversar, ouviu histórias que ilustram essa urgência. Um colega precisava pagar a mensalidade da escola do filho em três dias. Separado da mãe da criança, temia perder a guarda se não cumprisse essa única obrigação.
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"Ele começa a entrar num ciclo de trabalhar a maior quantidade de horas possÃvel, dormindo muito pouco e aceitando todo e qualquer tipo de corrida."
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A lógica se torna perigosa.
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"O carro pode ser enxergado às vezes como um cartão de crédito. Você faz a corrida, por pior que ela seja, você aceita ela e você vai acumulando um volume grande de dinheiro."
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O problema, pontua, é que "a conta vai chegar" - e ela vem em forma de combustÃvel, manutenção e depreciação do veÃculo. Mas tudo isso "vai ser depois do boleto".
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Esse mecanismo de antecipação da renda, segundo Fonseca, é o que torna a atividade tão atraente, apesar do sacrifÃcio.
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"Você ter dinheiro na mão de uma maneira muito rápida, desde que você tope ir para lugares perigosos, pegar corridas deficitárias e durma muito pouco."
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Um novo regime?
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Ao comentar a possibilidade de criação de um marco legal especÃfico para trabalhadores de aplicativo, Ilan Fonseca entende que qualquer legislação nova poderia vir para reforçar o que já existe na CLT ou adaptá-la à s novas formas de trabalho.
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Para ele, é preciso reconhecer que há, na atividade de motorista, elementos vantajosos de flexibilidade, como a possibilidade de interromper a jornada de trabalho a qualquer momento.Â
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Ainda assim, alerta que essa flexibilidade não elimina a existência de subordinação nem dispensa proteção jurÃdica.
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"A possibilidade também de você, no dia que você não quiser trabalhar, você não trabalhar, também é interessante, mas vai estar diretamente relacionada ao salário por peça, ou salário por produtividade, que é uma modalidade muito antiga de remuneração, desde a indústria têxtil."
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Ao fazer esse paralelo com as costureiras do inÃcio da Revolução Industrial, Fonseca afirma que não há novidade jurÃdica real.
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"Você não precisa mais ter uma subordinação no sentido de um local e um horário de trabalho, mas que ele permite exigir apenas a qualidade do serviço ou produto que está sendo entregue."
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Por isso, acredita que uma nova legislação poderia apenas "deixar isso bem claro", reforçando o já previsto na CLT e na Constituição.
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"A minha tese e a tese do Ministério Público do Trabalho é que, sim, a CLT, hoje em dia, ela já dá conta disso, no sentido de garantir direitos trabalhistas. A situação hoje em dia dos motoristas de aplicativo e entregadores é tão ruim que qualquer iniciativa que seja apresentada que garanta um pouco de direitos trabalhistas já vai ser recebido com muita alegria."
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Consciência de classe
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Durante o perÃodo em que atuou como motorista, Ilan realizou 10 entrevistas semi-estruturadas com outros condutores, sempre como passageiro.
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"Eu sentava no banco de trás e ia entrevistando", conta. Aos poucos, os motoristas, que iniciavam a conversa "muito frios, muito objetivos e na defensiva", passavam a se abrir.
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Dessas conversas emergiu um dado fundamental. "Os trabalhadores hoje em dia, eles têm perfeita consciência de que as condições de trabalho pioram ano a ano."
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Segundo ele, motoristas que em 2016 ganhavam R$ 8 mil ou R$ 10 mil passaram a ter que trabalhar o dobro de horas para conseguir R$ 2 mil ou R$ 3 mil lÃquidos.
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"Eles perceberam que os valores das corridas estão extremamente baixos, que tem muita oferta de corrida, mas poucas corridas são interessantes."
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Ao mesmo tempo, notou que a qualidade do serviço também se deteriora. Isso ocorre num ambiente de crescente vulnerabilidade e estresse.
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"A plataforma estimula esse conflito entre motoristas e passageiros a tornar ambos cada vez mais vulneráveis e dispostos a aceitarem qualquer tipo de coisa."
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A consciência sobre a deterioração das condições, contudo, não é acompanhada, na mesma medida, pela percepção jurÃdica do vÃnculo.
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"Eu diria que é meio a meio. Muitos motoristas já se enxergam como subordinados, como empregados."
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Mas nem sempre compreendem juridicamente o que isso implica. Ele acrescenta que essa confusão é amplamente alimentada por um discurso empresarial persistente.
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"Essa narrativa de que eles são empresários, empreendedores, acontece há 10 anos exclusivamente por parte das plataformas digitais."
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Na ausência de uma posição clara do Estado, essa ideologia ganha força. Enquanto isso, quem mais se beneficia são justamente as empresas. A adesão ao discurso de autonomia é, em grande parte, induzida.
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"Você vai assinalar um termo de uso, e nesse termo de uso está dito que você não possui nenhum tipo de relação de emprego."
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Julgamento no STF
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Ao comentar os julgamentos previstos no Supremo Tribunal Federal sobre a pejotização e os vÃnculos de trabalho nas plataformas digitais, Ilan Fonseca afirma que é muito importante que a posição que venha a prevalecer reconheça direitos trabalhistas que estão previstos na CF.
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Ele enfatiza que o reconhecimento da subordinação e da proteção trabalhista não se opõe à inovação, mas exige uma leitura histórica e social da norma.
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"Nenhum órgão, nenhuma ciência é contrária ao progresso, mas a gente precisa olhar um pouco para trás, para a nossa história e para perceber que a legislação, a Constituição, ela precisa ser aplicada para as pessoas, independentemente do tipo de trabalho que elas efetuam."
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Fonseca alerta que os chamados "empreendedores" de aplicativo, ao contrário da narrativa propagada pelas plataformas, não possuem capital, nem estrutura empresarial.
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"Eles não têm um conjunto de pessoas para administrar, eles só têm realmente a força de trabalho individual deles para oferecer."
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Diante disso, manifesta "expectativa positiva" de que o STF, ao julgar os casos de pejotização, reconheça a dignidade do trabalho realizado nas plataformas.Â
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Fonte: Migalhas - https://www.migalhas.com.br/quentes/434827/procurador-do-mpt-relata-experiencia-apos-atuar-quatro-meses-como-uber