Â
No dia 6 de agosto de 1945, a humanidade presenciou o maior crime que uma Nação poderia cometer contra outra. Foi quando os Estados Unidos lançaram uma bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima, matando, de forma brutal e instantânea, mais de 140 mil pessoas. Três dias depois, em 9 de agosto, foi a vez de Nagasaki: mais 74 mil vidas perdidas. O mundo nunca mais foi o mesmo.
Â
Â
Os que sobreviveram ao ataque atômico – os hibakusha – não saÃram ilesos. Além dos traumas fÃsicos e emocionais, carregaram, por décadas, o peso do estigma da radiação. A própria sociedade japonesa, em muitos momentos, marginalizou esses sobreviventes como se fossem portadores de uma maldição, quando na verdade eram vÃtimas de uma barbárie inimaginável.
Â
Â
A bomba atômica encerrou a Segunda Guerra Mundial, mas abriu um novo capÃtulo de medo, ameaça e desumanidade. Desde então, acreditávamos, ou querÃamos acreditar, que esse horror jamais se repetiria. Que Hiroshima e Nagasaki seriam feridas abertas e eternas, lembradas para garantir que a história não ousasse se repetir.
Â
Â
Mas hoje, 80 anos depois daquele ato hediondo, me pergunto, com angústia e um nó na garganta: será que aprendemos alguma coisa?
Â
Â
Nunca imaginei que veria o mundo flertar novamente com a escuridão. Nunca, nem nos meus mais profundos pesadelos, pensei que reviverÃamos tempos tão sombrios.
Â
Â
O ano de 2025 tem, perigosamente, o mesmo cheiro de 1920. Um clima de ódio, medo e intolerância que antecedeu a ascensão do nazismo na Alemanha. Um contexto de crise social e econômica, de ressentimentos acumulados, que alimentou monstros. Hitler, um orador carismático e manipulador, soube canalizar esse desespero. Transformou o patriotismo em nacionalismo fanático. Usou sÃmbolos religiosos de forma distorcida para justificar uma ideologia racista, violenta e genocida. E com isso arrastou multidões — e o mundo — ao abismo.
Â
Â
Qualquer semelhança com os dias atuais, infelizmente, não é coincidência.
Â
Â
Hoje, assistimos novamente à manipulação das massas por lÃderes irresponsáveis e autoritários, que usam discursos de ódio e desinformação para dividir as sociedades. Vemos, em diversas partes do mundo, uma crescente polarização polÃtica e social, que transforma adversários em inimigos, divergências em ameaças.
Â
Â
No Brasil, a polarização afetiva vem minando o respeito mútuo e a democracia. O cidadão que pensa diferente de você não é um inimigo — mas muitos têm sido levados a acreditar que é. Nas redes sociais, nos lares, nas ruas: o diálogo cede espaço à intolerância.
Â
Â
E, no cenário internacional, voltamos a temer lÃderes que agem como se tivessem o mundo em suas mãos — ou pior, armamentos nucleares prontos para serem acionados a qualquer sinal de vaidade ferida. O presidente da maior potência do planeta, em vez de promover a paz, desloca navios nucleares como demonstração de força. Como se o mundo não tivesse aprendido nada. Como se Hiroshima e Nagasaki fossem apenas notas de rodapé nos livros de história.
Â
Â
Recentemente, vimos o Irã ser atacado sob a justificativa de impedir o enriquecimento de urânio — um processo que poderia levá-lo à fabricação de uma bomba atômica. Ou seja, mais uma vez, a ameaça nuclear está no centro de disputas geopolÃticas, e a diplomacia dá lugar à intimidação, à intervenção militar e à destruição preventiva. Essa lógica perversa de "atacar para impedir" já nos levou a tragédias inomináveis no passado. Não podemos normalizar isso.
Â
Â
Por isso, ao lembrar os 80 anos do bombardeio atômico que devastou duas cidades e milhões de vidas, eu, Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores, faço este apelo: não esqueçamos. Não deixemos que a memória das vÃtimas seja em vão. Não permitamos que o horror da guerra volte a ser encarado como solução.
Â
Â
O papel do sindicalismo, mais do que nunca, é lutar pela dignidade humana, pela paz e pela justiça. O trabalhador — seja ele brasileiro, japonês, ucraniano, palestino, israelense ou iraniano — não quer guerra. Quer viver, criar seus filhos, ter esperança. E é nossa missão, como lÃderes sindicais e sociais, defender esse direito fundamental à vida, ao respeito e à convivência pacÃfica.
Â
Â
A humanidade precisa escolher: seguir em frente ou repetir os mesmos erros que nos levaram às trevas. Que a lembrança de Hiroshima e Nagasaki seja um grito que ecoa através do tempo: nunca mais!