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O governador do estado de São Paulo, o bolsonarista TarcÃsio de Freitas (Republicanos) vem praticando mais um abuso contra a população paulista. Em larga escala, ele vem implementando o sistema de pedágio automático conhecido como Free Flow (livre fluxo, em português). Embora vendido como avanço tecnológico e promessa de modernização, o Free Flow favorece motoristas de passagem que utilizam tag eletrônica, mas penaliza os usuários cotidianos das rodovias paulistas que dependem desses trajetos para trabalhar, estudar ou exercer atividades comerciais.
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O modelo já está em funcionamento em alguns trechos, mas a gestão pretende ampliar a cobrança para dezenas de pontos de rodovias, alcançando regiões densamente povoadas como o Circuito das Ãguas e a Rota Sorocabana. Apenas nesta última já estão em andamento nove pórticos de pedágios.
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De acordo com os contratos de concessão firmados pelo governo paulista, o projeto prevê a instalação de 37 pórticos de pedágios automáticos, com investimento de R$ 10 bilhões e prazo de concessão de 30 anos.
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Ao todo, o governador anunciou a intenção de implementar pelo menos 58 novos pontos de cobrança no modelo Free Flow. Além disso, a gestão estadual já planeja a privatização de 533 quilômetros de rodovias em 31 municÃpios do Circuito das Ãguas, o que, na prática, significa a instalação de mais de 30 novos pedágios nessa região.
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“O Free Flow é um mecanismo de arrecadação que, primeiro, pesa no bolso da população paulista, que já paga preços altÃssimos nos pedágios; segundo, não garante que esses recursos retornem em melhorias efetivas nas rodovias, nem mesmo na segurança do trânsitoâ€, avalia o secretário nacional de Transportes e LogÃstica da CUT, Wagner Menezes, o ‘Marrom’.
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O dirigente critica a instalação de mais pedágios nas estradas paulistas. “Não tem cabimento implementar mais pedágios, ainda por cima com um sistema sem transparência alguma. Esse pedágio automático transforma trajetos curtos do dia a dia em custos acumulativos, cobrando várias vezes por pequenas distâncias e ainda impondo multas a quem não consegue pagar pelo sistema confuso das concessionárias.â€
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Abuso
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A implementação do Free Flow é vista por diversos setores como um sistema abusivo que transfere toda a responsabilidade para os usuários sem garantir informações adequadas.
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“Apesar de o equipamento eletrônico ter utilidade para tornar as viagens mais rápidas, na prática ele se transformará em mais uma máquina de fazer dinheiro a favor do governo estadual. O interesse não é voltado ao cidadãoâ€, diz Marrom.
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A instalação dos pedágios Free Flow em São Paulo tem gerado forte reação social e polÃtica. Audiências públicas na Assembleia Legislativa reuniram prefeitos, vereadores e moradores para denunciar os impactos do sistema e alertar para o risco de transformar o pedágio automático em uma “indústria de multasâ€, mas o governo estadual não enviou representantes da Artesp, responsável pela regulação das concessões.
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O deputado estadual Reis (PT), que protocolou o Projeto de Decreto Legislativo nº 6/2025 pedindo a suspensão da instalação dos Free Flow,criticou a forma como o governo estadual conduziu o processo.
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“O governo pegou muita gente de surpresa e começou a aparecer rodovias que foram concedidas e, que nos contratos já havia previsão desses pedágios Free Flow. As pessoas não sabem o que é, acham que é radar e não tem uma campanha educativa. AÃ, quando você vai licenciar o veÃculo, descobre que tem muitas multas para pagarâ€.
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Até mesmo parlamentares da base do governador se posicionaram contra. O deputado Vitão do Cachorrão (Republicanos) questionou o impacto econômico para categorias que dependem da estrada.
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“Nós não somos a favor desses pedágios. Como os caminhoneiros vão sobreviver? Terão que pagar para trabalhar. Imagina, estudantes que moram numa cidade e vão estudar na cidade vizinha. Absurdo. Somos contra mais pedágios, já pagamos IPVA, por que temos que pagar ainda mais pedágios?â€
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A vereadora de Serra Negra, Ana Bárbara Regiani Magaldi (União), afirma que é “ um ataque à mobilidade da nossa gente.†Já o vereador Paulo Volcov (Republicanos), de Araçariguama, destacou o impacto social.
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“Isso não é um tema de direita e esquerda, isso é sobre o direito de ir e vir da população. Nós não estamos discutindo apenas o Free Flow, mas uma indústria de multas. Pessoas que não têm tanta informação, que não estão familiarizadas com a tecnologia vão receber muitas multas e prejudicará o orçamento das famÃliasâ€.
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O deputado Carlos Giannazi (Psol) em suas redes sociais, lembrou que São Paulo é o estado com o maior número de praças de pedágios no Brasil. “E o governador ainda quer mais. O sistema Free Flow, a máquina de multas do pedágio sem cancela, já tem quase 10 mil motoristas endividados em menos de dois mesesâ€, complementou o parlamentar.
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A vereadora Paolla Miguel (PT), de Campinas, também criticou o sistema. “Serão 37 novos pontos de cobrança em várias rodovias que ligam nossa cidade a cidades vizinhas, principalmente no Circuito das Ãguas. Tem gente que hoje não paga pedágio que vai passar a pagar para fazer trajetos muito curtosâ€, disse.
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Em vez de melhorar as estradas e oferecer transporte público de qualidade, o governo instala pedágios em todo canto, transferindo a conta para trabalhadores, estudantes e comerciantes
- Wagner Menezes
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As crÃticas
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As crÃticas ao sistema Free Flow envolvem diferentes pontos:
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Substituição de trabalhadores: a tecnologia elimina os cobradores de pedágio, gerando desemprego.
Indústria de multas: milhares de motoristas têm sido multados por desconhecer o funcionamento do sistema ou por falhas de comunicação.
Falta de transparência: ausência de placas informativas e sites e aplicativos confusos, que dificultam o pagamento, especialmente para idosos.
Custo elevado para trabalhadores: motoristas de aplicativo, entregadores, representantes comerciais e estudantes que cruzam cidades diariamente são os mais prejudicados.
Impacto econômico regional: o aumento do custo do frete encarece alimentos e produtos essenciais, pressionando a economia local.
Cobrança injusta de moradores: em trechos como a SP-304, 80% dos usuários são moradores da região, penalizando a população que usa a estrada em sua rotina.
Judicialização: deputados e vereadores já acionaram o Ministério Público e o Tribunal de Contas contra o modelo.
Repressão a protestos: manifestações contra os pedágios têm sido reprimidas pela PolÃcia Militar, com uso de tropa de choque, bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo.
Pressão popular contra o Free Flow
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Em Sorocaba, a pressão popular obrigou o governador a reduzir de 13 para nove o número de pórticos previstos.
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No dia 3 de agosto, moradores bloquearam a Rodovia Raposo Tavares (SP-270), no Mirante da Mata (KM 37), na região de Cotia, contra a criação de seis novos pontos de cobrança automática. Com cartazes como “Meu IPVA vai pra onde?†e “Metrô sim! Pedágio não!â€, os manifestantes penduraram um boneco representando o governador TarcÃsio de Freitas de cabeça para baixo, em ato simbólico de repúdio, acompanhado por um buzinaço de motoristas.
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A PolÃcia Militar utilizou Tropa de Choque, bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo para dispersar o protesto, o que foi criticado por parlamentares e lideranças locais como repressão excessiva contra manifestações legÃtimas. Para crÃticos, além do peso financeiro, o sistema ameaça a mobilidade e o direito de ir e vir da população.
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Fonte: CUT