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A Câmara dos Deputados se prepara para votar um conjunto de medidas que, na prática, reinstala uma barreira contra investigações e processos criminais envolvendo parlamentares. O centro do acordo é a PEC das prerrogativas, reapresentada a partir de um texto de 2021, que recoloca no jogo a exigência de autorização prévia do Congresso para que uma ação penal contra deputado ou senador seja aberta. A medida é tratada nos corredores do Legislativo como parte de um pacote mais amplo de autoproteção, apelidado por crÃticos de “pacote da impunidadeâ€.
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A proposta recupera o cenário anterior à Emenda Constitucional 35/2001. Até então, processos só avançavam se a Câmara ou o Senado autorizassem — algo rarÃssimo, segundo dados históricos. Com a mudança aprovada em 2001, denúncias passaram a ser recebidas diretamente pelo Supremo Tribunal Federal, e os parlamentares só podiam intervir depois, pedindo a suspensão do processo. Agora, a blindagem pretende devolver ao Legislativo a chave que permite ou não o inÃcio de uma investigação formal, recolocando o poder polÃtico como porteiro do sistema judicial.
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Entre os pontos previstos estão:
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Licença para processar. A ação penal só existirá se deputados e senadores derem aval. Sem isso, o processo é arquivado antes mesmo de começar.
Prisão em flagrante restrita. A detenção só será possÃvel em casos de crimes inafiançáveis, como racismo, terrorismo ou tráfico, e caberá à Casa decidir, em 24 horas, se mantém ou não o parlamentar preso.
Afastamento cautelar proibido. Nenhum juiz poderia suspender parlamentar do exercÃcio do mandato, mesmo diante de provas de obstrução ou destruição de evidências.
Cautelares travadas. Medidas que afetem diretamente o mandato, como restrições de comunicação ou afastamento de funções, só terão validade após confirmação do plenário do STF. Até lá, provas podem ser comprometidas.
Mandados sob amarras. Buscas em gabinetes e residências parlamentares dependerão exclusivamente do Supremo e terão de ser acompanhadas pela PolÃcia Legislativa.
O debate sobre o foro privilegiado corre em paralelo, mas tende a perder fôlego. A proposta de transferir processos para a primeira instância não deve avançar. Parlamentares avaliam que seria arriscado abrir esse precedente no atual contexto, em que muitos enfrentam processos sensÃveis. A leitura é de que a blindagem real acontecerá via controle polÃtico sobre o inÃcio das ações penais e o esvaziamento das medidas judiciais, e não pelo foro. Assim, a expectativa é de que a regra continue como está.
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A professora de Direito Constitucional Damares Medina ressalta que os dados históricos não deixam margem para dúvidas: antes de 2001, quase não havia ações penais contra parlamentares porque o Congresso travava sua abertura. Segundo ela, “o que os números demonstram é que, quando a chave fica nas mãos dos próprios parlamentares, os processos simplesmente não existemâ€. Ela também observa que o vale entre 2020 e 2022 coincidiu com a inação da Procuradoria-Geral da República sob Augusto Aras, e que isso pode ter contribuÃdo diretamente para o ambiente que resultou nos ataques de 8 de janeiro. “Quando o sistema fica paralisado, a democracia fica sem respostaâ€, alerta.
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Damares acrescenta ainda que o pico registrado em 2023 mostra justamente o oposto: quando o Ministério Público retoma sua atuação sem barreiras polÃticas, os processos aparecem, inclusive em casos que envolvem ataques ao regime democrático. Para ela, a lição é clara: “travar a investigação é abrir espaço para o crime prosperarâ€.
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O impacto prático seria visÃvel em casos recentes. Parlamentares investigados por corrupção, lavagem de dinheiro ou incitação aos atos de 8 de janeiro poderiam ter escapado de buscas e medidas cautelares se o modelo da PEC já estivesse em vigor. A Procuradoria-Geral da República teria de esperar um aval polÃtico prévio, e o Supremo ficaria engessado até o plenário confirmar qualquer decisão mais dura.
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A disputa agora é polÃtica. Lideranças do centrão e do PL pressionam pela aprovação, enquanto setores do governo e partidos de esquerda resistem. Governistas argumentam que a proposta desmonta conquistas democráticas das últimas duas décadas, além de enfraquecer o Ministério Público e criar atritos com o Supremo. Há também cálculo eleitoral: votar a favor pode ser visto pelo eleitor como sinal de autoproteção, e votar contra pode custar caro em articulações futuras dentro da Casa.
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Na avaliação de membros do governo, o avanço desse projeto fragiliza também a imagem do presidente da Comissão Mista de Orçamento, Hugo Motta. Como foi ele quem permitiu que a proposta fosse pautada, tende a concentrar as crÃticas caso a PEC prospere. Por ser expoente do centrão e ter ligação direta com a pauta, Mota é visto como alvo preferencial de insatisfação pública e polÃtica. Para aliados, sua postura cada vez mais revela fraqueza: ora promete ao bolsonarismo, ora ao governo, mas não entrega nada de forma consistente. A leitura é de que sua condução errática demonstra mais submissão do que liderança, e sua imagem sai do processo ainda mais desgastada.
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Sóstenes Cavalcante também aparece nas conversas de bastidor como um dos articuladores do pacote, mas sua atuação é vista como oportunista: apresenta-se como defensor da moralidade, enquanto patrocina uma proposta que, na prática, garante salvo-conduto a parlamentares acusados de corrupção ou de ligação com atos antidemocráticos. O Planalto avalia que ele se expõe ao desgaste de associar sua imagem a um projeto que traduz, em essência, impunidade.
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Outra preocupação no governo é que uma PEC desse alcance amplia ainda mais o poder do Congresso em um cenário em que já há excesso de emendas parlamentares e pouca transparência. Na leitura de um membro da articulação polÃtica, aprovar a blindagem significa tornar o paÃs “definitivamente ingovernávelâ€. Um parlamento sem freios poderia usar emendas como bem entendesse, sem fiscalização e sem risco de responsabilização. Seria a consolidação do sequestro do orçamento público e do interesse público.
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O advogado criminalista Kakay classificou a PEC como “um atraso†e “um escândalo completoâ€, afirmando que exigir permissão da Câmara ou do Senado para investigar parlamentares é “um passaporte para cometer crimesâ€. Para ele, a discussão em torno do foro e da blindagem é casuÃstica e ligada ao temor de investigações sobre o orçamento.
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A deputada Sâmia Bomfim disse que a proposta “escancara o que há de mais podre no Congresso Nacional†e representa a união de corruptos e golpistas para garantir impunidade. Segundo ela, em vez de debater direitos trabalhistas ou a isenção do imposto de renda, a Câmara escolhe legislar em causa própria.
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O deputado Rogério Correia afirmou que, se a PEC for aprovada, “a Câmara deixará de ser a Casa do Povo para se transformar num esconderijo da bandidagemâ€. Para ele, o parlamento se tornará “o lugar mais seguro para cometer crimesâ€, levantando uma muralha contra a Justiça enquanto temas de interesse popular ficam em segundo plano.
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Já a deputada Fernanda Melchionna classificou a proposta como “escandalosa†e disse que o Congresso se especializou em criar leis para proteger seus próprios integrantes. Em suas palavras, trata-se de um “casamento de conveniência entre o centrão e a extrema direitaâ€, em que uns querem blindagem contra acusações de corrupção e outros contra processos por apologia ao golpe.
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O absurdo final é que, até o fechamento desta reportagem, o texto da PEC sequer estava pronto. Deputados confirmaram que ainda não receberam a versão final do projeto, que deve ser apresentado, finalizado e votado no mesmo dia. Para crÃticos, é a consagração da improvisação: mudar regras fundamentais da democracia em ritmo de rolo compressor, sem debate, sem transparência e com pressa de garantir a própria proteção.
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O que está em jogo, no entanto, é mais simples: permitir que parlamentares decidam se eles próprios podem ou não ser investigados. Para crÃticos, trata-se de entregar a chave da cadeia ao preso e reconstituir, com força constitucional, o manual da impunidade.