
A diretora do Sindsaúde Jaú e Região, Sofia Claudete Rodrigues Borges, foi a palestrante de um encontro dedicado à reflexão sobre o papel da mulher na sociedade, realizado no espaço Flor Naïf, em Jaú. O bate-papo, mediado por Jenifer Leila, integrou a proposta do local de promover conexões, valorizar trajetórias e fortalecer o empreendedorismo feminino e criativo.
Durante a conversa, Sofia abordou o tema “O que é ser mulher”, trazendo à tona relatos marcantes de sua própria história de vida e trabalho, além de reflexões sobre desigualdade, racismo e os desafios enfrentados pelas mulheres, especialmente as negras, ao longo das décadas.
Em um depoimento contundente, ela relembrou a infância em Jaú, onde começou a trabalhar ainda aos 9 anos como babá em casa de uma família tradicional. “Nos anos 60, a mulher negra só servia para trabalhar como empregada doméstica, de domingo a domingo, sem folga, sem registro e sem direitos”, destacou.
Sofia também resgatou mudanças importantes na legislação trabalhista, como a obrigatoriedade do registro das empregadas domésticas, impulsionada no final dos anos 1970 por iniciativa do então deputado Franco Montoro. Ainda assim, segundo ela, a realidade estava longe do ideal. “Mesmo com registro, muitas não tinham folga. E era comum o patrão registrar em um dia e cancelar no outro, sem avisar a trabalhadora, que acreditava estar protegida. Infelizmente, práticas como essas ainda acontecem hoje”, afirmou.
A sindicalista ressaltou que a exploração atinge tanto mulheres negras quanto brancas, embora o racismo agravasse ainda mais as condições de trabalho. Segundo ela, a luta por direitos e respeito segue atual, especialmente no trabalho doméstico, onde ainda há resistência de empregadores em cumprir a legislação.

Com uma trajetória marcada pelo trabalho desde cedo, Sofia atuou em diferentes áreas antes de ingressar na saúde e no movimento sindical. Associada ao Sindsaúde desde 1986, tornou-se uma das principais vozes em defesa dos trabalhadores e, em especial, das mulheres. Também é diretora da Federação da Saúde desde 1997 e carrega o sindicalismo como herança familiar, tendo acompanhado o pai em atividades sindicais ainda na infância.
Nascida em Jaú em 17 de agosto de 1952, foi operária em tecelagem. Posteriormente, mudou-se para São Paulo, onde se formou como atendente de enfermagem e trabalhou em hospitais como São Camilo, Matarazzo e Samaritano. De volta a Jaú, atuou no Hospital Amaral Carvalho e na Santa Casa, onde permaneceu no setor de hemodiálise até a aposentadoria.
Mesmo aposentada, segue ativa, cursou Serviço Social e atua como palestrante, abordando temas como a presença da mulher negra em espaços de poder. Sua trajetória como trabalhadora da saúde e sindicalista foi reconhecida há alguns anos pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), durante Sessão Solene pelo Dia Estadual do Trabalhador da Saúde.
Em sua fala, Sofia também trouxe à memória a história de sua família, marcada pela herança da escravidão. Ela relatou que sua bisavó nasceu no período da Lei do Ventre Livre, mas, mesmo assim, continuou trabalhando na “casa grande”, já que seus pais ainda eram escravizados.
Espaço de oportunidades e valorização local
O encontro aconteceu na Flor Naïf, espaço idealizado pela empreendedora e curadora Natália Turini, que há quatro anos vem consolidando o local como uma vitrine para artistas, artesãos e pequenos empreendedores de Jaú e região.
Com uma proposta colaborativa, a Flor Naïf reúne mais de 80 marcas autorais, oferecendo produtos que vão desde artesanato, semijoias e vestuário até perfumaria, bordados, pinturas, especiarias, pães de fermentação natural e doces caseiros. O espaço também se destaca por ser pioneiro na curadoria de gastronomia artesanal, com opções que atendem diferentes perfis alimentares, incluindo produtos com e sem glúten, com e sem açúcar, além de opções veganas.

Mais do que um ponto de venda, o local se define como uma “casa viva, pulsante e afetiva”, voltada à valorização da economia criativa e do consumo consciente. A iniciativa abre portas especialmente para mulheres empreendedoras, promovendo autonomia financeira, visibilidade e fortalecimento de redes de apoio.
Ao unir histórias como a de Sofia Borges com iniciativas como a da Flor Naïf, o evento reforçou a importância de espaços que acolhem, escutam e impulsionam transformações sociais a partir da valorização da mulher em todas as suas dimensões.

Flor naif
Curadoria de marcas autorais
Av Isaltino do Amaral Carvalho, n° 2087 • Jaú-SP
Seg a sex 9h às 19h • sáb 9h às 17h
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TRECHO DA PALESTRA DA SOFIA
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